O pai do homem

Nesse momento, em poucos segundos, um filme inteiro passou na cabeça de Paulo.

Ele voltou no tempo e se viu menino correndo pela rua de terra. Enquanto os pés descalços perseguiam a bola de trapos, a cabeça se enchia de sonhos, que incluíam, entre outros disparates infantis, uma bola de capotão que nunca chegava. Todos os anos, pedia a tal da bola como presente de aniversário. O tempo passou, a infância passou, a vontade da bola... meio que não.

A adolescência foi vivida modestamente. O pai pouco podia oferecer aos quatro filhos, mas trabalhava duro como ajudante de pedreiro para que não faltassem comida e roupa. Exigia dos moleques dedicação na escola e ajuda à mãe em casa, até que chegasse o tempo em que pudessem trabalhar também.

Desejos não satisfeitos pareciam uma marca da existência, mas havia felicidade. E, de alguma maneira inexplicável, a vontade de ter algumas coisas motivava Paulo a se esforçar por um futuro diferente. Ele, então, batalhou firme, estudou com afinco, arranjou um trabalho assim que pode e, aos poucos, foi construindo a vida.

Chegou o tempo de se encantar por uma moreninha que fazia tudo parecer bem melhor. Nesse período, já tinha conseguido iniciar um curso superior. Dividia o tempo entre estudos, trabalho e a moreninha – e um pouquinho de sono, porque ninguém é de ferro. Não demorou até que a namorada também ingressasse na faculdade. E eles já faziam planos para o futuro.

Quando anunciaram que antes mesmo de terminar os estudos iriam se casar, ouviram uma enxurrada de impropérios. Incontáveis vezes foram advertidos de que a vida seria difícil – como se nunca tivesse sido antes! Não obstante as censuras, foram abençoados pelos pais e, assim, casaram-se em uma cerimônia simples, cheia de sorrisos e lágrimas, como tinha que ser.

Tendo agora seu próprio lar, Paulo se entregou ao trabalho, em busca de uma situação confortável. Tinha memória nítida do dia em que, cansado, deitou-se no sofá puído, repousando a cabeça na coxa da esposa, e se pegou pensando em que não deixaria filho seu ter a vida que ele mesmo tivera. Nessas cogitações, “filho” era sempre no singular mesmo, de propósito. Já tinham estabelecido que seria apenas um, para poderem fazê-lo feliz.

O trabalho árduo de anos começou a mostrar resultados. Os desejos agora podiam ser satisfeitos e isso era agradável. Para completar o regozijo do casal, o teste de gravidez deu positivo. Uma alegria que não se podia conter! Os meses seguintes pareceram estória de cinema, daquelas em que o ápice da tensão desemboca em um final feliz. Ao rebento, Paulo deu, no mesmo dia, o nome André e uma bola de futebol.

Um novo motivo existia para que Paulo se esforçasse cada vez mais por uma condição abastada. Queria dar ao filho o melhor. Ralou muito e, assim, viu o menino crescer tendo tudo aquilo que ele sempre quisera.

O tempo passou rápido e, de repente, Paulo tinha diante de si um adolescente. Era preguiçoso, medroso e insatisfeito. Vivia aborrecido e – o que mais lhe doía – não tinha qualquer respeito por quem quer que fosse.

Paulo experimentava uma frustração que nunca sentira. Na noite anterior, já bem tarde, deitou-se na cama finamente coberta e ficou pensando no filho.

Veio a madrugada, mas o sono não. Revirou-se na cama até o sábado começar a clarear, prenunciando um dia ensolarado. Cedo foi para o quintal e passou longo tempo sentado em uma cadeira de fios, tomado pela agitação da mente. Por volta das dez horas, viu aparecer o filho, com andar trôpego, todo desgrenhado. Ainda estava a cinco passos do pai quando começou a falar:

“Pai, eu quero um...”.

Nesse momento, em poucos segundos, um filme inteiro passou na cabeça de Paulo.

Como nunca fizera antes, ele olhou para André de forma penetrante. Com movimentos leves, sua cabeça se moveu algumas vezes para um lado e para o outro. E, sem deixar de fitar o menino, ele, enfim, disse:

“Não, meu filho! Não.”

* * *


Rogério Camargo Nery

Texto originalmente escrito em 27/02/2021.

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