Sobre "meninas" e "senhoras"

Ela desceu as escadas afoita, à procura do celular. Estava atrasada. Vasculhou sob as almofadas do sofá, jogou no chão as revistas que estavam sobre a mesinha de centro, percorreu com os olhos toda a extensão do rack da TV. Nada de celular. Era coisa dos meninos, com certeza! Subiu as escadas novamente, não tão rápido quanto gostaria. Os quarenta anos há pouco completados demonstravam sua impiedade. Entrou no quarto e lá estava o aparelho, sobre a cama. Coitados dos meninos, levam a culpa de tudo. Mas eles dão motivo!

Entrou no carro ofegante. Precisava se apressar. Tinha sido convidada a palestrar em uma reunião na igreja especialmente organizada para mulheres idosas. O tema: “A beleza da velhice”. Aceitara o convite e desejava corresponder às expectativas, se não superá-las. Por isso, não queria chegar atrasada e causar uma impressão ruim. Dirigiu todo o trajeto com cautela, mas no limite da velocidade permitida.

Chegou em cima da hora. “Pontualidade britânica, heim?!”, brincou uma das organizadoras. Sorriu, fingindo se orgulhar, mas no fundo a consciência acusava. Tudo isso lhe aumentava o nervosismo. Cumprimentou a todas que lhe cruzaram o caminho enquanto procurava uma cadeira. Sentou-se e ficou observando as “meninas” que arrumavam mesas, decorações e salgadinhos. “Meninas” era uma boa forma de o grupo da meia-idade se tratar sem fazer com que a linguagem acusasse as idades – “senhoras” envelhece demais.

O salão não estava ocupado apenas pelas “meninas”. Muitas das idosas convidadas já estavam lá – essas eram chamadas de “senhoras”, sem constrangimento. Na verdade, era até demonstração de respeito. Viu mais algumas “senhoras” chegarem, causando euforia entre as já presentes. Quinze minutos de atraso e a reunião começou. Uma das “meninas” agradeceu a presença de todas e fez uma oração. Seguiram-se as práticas próprias dessas reuniões: a leitura de um versículo, algumas músicas, a declamação de uma poesia, etc.

As idosas acompanhavam animadas. Havia velhinhas de todo tipo: senhorinhas magras e gordas, tímidas e faladeiras, risonhas e carrancudas, simples e extravagantes… Cada uma, de forma peculiar, ostentava as marcas do tempo. Ela observava a todas, ao mesmo tempo em que processava sua preleção na mente, silenciosamente.

Enfim, foi anunciada. Dirigiu-se à frente, organizou alguns papéis e sorriu, enquanto dizia para si mesma que não havia motivo para nervosismo. Agradeceu a oportunidade, como era praxe, e tratou do tema proposto, ganhando desenvoltura na medida que se acostumava com sua plateia. Sendo fiel ao que lhe fora proposto, falou sobre a graça de ter vida longa, sobre a importância da sabedoria acumulada com os anos, sobre a autoridade que acompanha os cabelos brancos, sobre a alegria de ver as gerações se sucedendo… Discorreu conforme planejado e foi aplaudida ao final. Sentiu-se satisfeita.

Ao fim da reunião, recebeu congratulações. Depois de algumas conversas e vários salgadinhos, despediu-se das amigas que estavam mais próximas. Pegou o carro e voltou para casa, sem a correria da ida.

Chegou em casa exausta. Não tinha mais o pique da juventude. O marido e os meninos ainda não tinham chegado. Soltou a bolsa sobre o sofá e subiu os degraus da escada, pé após pé, suportando um peso que o corpo parecia não ter horas atrás. Entrou no quarto, jogou o celular sobre a cama e se dirigiu ao banheiro. Olhou-se no espelho. Passou alguns segundos contemplando seu rosto. Assim de perto, era possível reparar algumas rugas que, no corre-corre, a maquiagem conseguia disfarçar. Com as pontas dos dedos, esticou a pele nas laterais da face. Virou levemente a cabeça para analisar o resultado do lado direito. Em seguida, do lado esquerdo. Passou a mão pelos cabelos curtos, cortados há poucos dias para manter a aparência jovial. Pensou que o tempo é realmente impiedoso. Na imagem refletida no espelho, viu uma lágrima escorrer.

* * *


Autor: Rogério Camargo Nery

Originalmente escrito em 01/01/2019. Texto revisado pelo autor.




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